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A Arte da Simplicidade

"Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico." (Séneca)

"Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico." (Séneca)

A Arte da Simplicidade

09
Set17

Haja Bom-Senso


Margarida

Passei, na passada semana, por uma conferência sobre a "Confiança nos Cuidados de Saúde".

Como em todas as conferências deste género tive vontade de discutir com os palestrantes, de lhes mostrar o meu desacordo ou a minha alegria de os ouvir. A ética e a deontologia são tão vastas que rapidamente se passa da confiança à lealdade, à literacia ou à responsabilidade. 

E foi a questão da responsabilidade que me prendeu a atenção e me fez entrar numa espécie de "transe reflexivo" e que me fez escrever este texto. 

Nessa dita conferência uma "cadre de santé" (o equivalente francês a um chefe de uma área de saúde, como por exemplo uma enfermeira chefe) e um filósofo fizeram as suas apresentações e tocaram num assunto da moda dentro dos ciclos da medicina. Porque são as terapias alternativas assim tão apetecíveis para os doentes?

As respostas foram muitas e variadas: Falou-se de ceticismo e de falta de confiança, de lealdade e de questionamento mas sempre no sentido do médico em relação ao doente. Mas como qualquer relação só faz sentido nos dois sentidos faltou a parte doente-médico para completar o quadro. 

Nesse espaço de tempo fiz uma revisão de tudo aquilo que vi ao longo destes mais de sete anos de prática clínica enquanto fisioterapeuta e vi também passar pelos meus olhos tantos outros aspetos da minha vida pessoal e de situações que ouço e vejo ao longo do dia. Afinal a minha profissão faz parte da minha vida mas não é ela que me define, no entanto o fato de ser a Margarida definirá em muita coisa a minha vida profissional. 

Desde cedo acusei o peso da "responsabilidade" que o doente punha nas minhas costas e sempre fui muito sensível à sua exigência e à sua crítica. Claro que hoje em dia cresci e lido com a situação de outra forma mas, como naquela altura, creio que faz sentido partilhar alguma dessa responsabilidade com quem está mais interessado na situação: o próprio doente.

Se é minha obrigação moral ser competente e eficiente, aprender mais e estudar mais, compreender o doente, os seus problemas, as suas queixas, saber avaliá-lo e acompanhá-lo ao doente deve ser imputada a sua responsabilidade na admissão da verdade e da adesão à terapia proposta. Em exemplo concreto: se um insuficiente cardíaco crónico vêm parar ao hospital três vezes num ano porque não respeitou a prescrição hidríca que o médico lhe fez ou se um transplantado renal faz uma rejeição de órgão por não tomar os seus medicamentos a tempo e horas a quem deve ser imputada a responsabilidade? Não é com certeza do médico mas ninguém vai dizer que houve erro do doente (vamos preferir o "coitadinho").

Se há erro médico no Mundo real, há com certeza mas, no entanto, essa taxa é muito mais baixa do que se pensa.

Se não há acordo e a comunicação nem sempre é eficaz sim, deviamos acrescentar mais humanismo áquilo a toda a técnica de que dispomos. Se passassemos a encarar a pessoa, e não o seu médico, como ator principal da sua saúde seria já um passo de gigante nesta humanização dos serviços de saúde mas é tão confortável quer para um lado quer para o outro a ideia do "médico paternalista" que tudo sabe e tudo pode... mas que, no entanto, aleado ao excesso de informação errada ou mal compreendida, que nos está acessível num simples click, é um verdadeiro problema para a medicina nela mesma pois torna-nos mais cépticos e mais revoltados. 

Mas não é só de medicina que vive o homem, passemos então a outra questão: Nunca tivemos tanta informação, nem tantos livros de psicologia positiva, de desenvolvimento pessoal e de educação alternativa e nunca tivemos país tão infelizes e filhos tão problemáticos. Dá vontade de perguntar onde está o erro no meio disto tudo.

Os pais sentem-se pouco confiantes e culpados por terem uma vida complicada com muitas horas de trabalho, por não darem aos filhos tudo o que eles querem ou por estarem pouco tempo com eles e vão em busca de verdades absolutas em livros de educação alternativa sem, no entanto, utilizarem o seu sentido crítico nesta leitura: estão demasiado focados nos seus próprios erros e, mais uma vez, precisam de uma mão amiga, de alguém que lhes afague a cabeça e diga: é assim que se faz. 

Ou seja, algo que podia ser um apoio interessante à partida passa a ser encarado como uma verdade absoluta e  são cada vez mais comuns a defesa de teses como a necessidade absoluta de respeitar as vontade da criança, ou melhor deixá-la fazer tudo o que lhe apetece, para que ela desenvolva a sua personalidade. E a minha pergunta é: e onde fica a educação que será tão necessária a essa criança para viver em sociedade e estabelecer relações interpessoais? E o seu sentido de resiliência? E a sua estrutura de valores?

Podemos ir ainda mais longe se nos centrarmos em algumas das críticas lançadas à escola e ao sistema de educação. Os pais exigem escolas mais interessantes, com temáticas mais atrativas esquecendo-se que o aproveitamento do aluno têm de passar pelo seu esforço! E sejamos honestos como podemos ter médicos, advogados ou professores, ou mesmo ser simplesmente críticos em relação ao que nos rodeia se não tivermos um mínimo de conhecimentos de biologia, química, matemática ou história ou das principais ciências que explicam o Mundo em que vivemos e as relações entre os seus habitantes? E se, só fizermos aquilo que nos interessa sem passar por situações de dificuldade mas apenas de prazer podemos sinceramente evoluir como pessoas, saber do que gostamos ou não e saber respeitar o outro, aquele que faz algo de que não gostamos?

Existem muitos outros exemplos para além destes. Existem milhares de possibilidades de respostas a refutarem este meu texto: que os médicos se estão a borrifar para os doentes nos fins de turno, os filhos não têm de ser obrigados a dar beijinhos às tias ou que a escola tinha margem para ser mais atrativa. Posso estar de acordo com todas elas ou não mas vou respeitá-las. Mas não nos devemos esquecer que o bom senso têm de estar presente, assim como o sentido crítico (positivo) daquilo que vemos ou lemos. E o mais engraçado é que estas noções podem todas coexistir de uma maneira saudável e ajudar-nos finalmente a ser mais responsáveis, mais literados, mais proativos e consequentemente mais confiantes em nós e mais felizes! 

Margarida

 

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