Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Arte da Simplicidade

"Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico." (Séneca)

"Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico." (Séneca)

A Arte da Simplicidade

07
Jul17

3 Meses sem calmantes! Yeah!!!


Margarida

Como já vos contei em vários outros posts, à alguns anos atrás tive um problema de burn-out e ansiedade. Nessa altura, mais ou menos pelo final do Inverno do ano de 2014, percebi que não podia continuar assim e acabei numa consulta de psiquiatria. 

O primeiro especialista a que fui, e que se é verdade que me apanhou em plena fase negra, escolheu uma terapêutica 100% com medicamentos. Poucas palavras e nenhuma tentativa de estabelecer mais contacto do que aquele que permite a distância entre o paciente e o médico com a secretária pelo meio.

Passei a tomar comprimidos para tudo: para não chorar, para dormir, para acordar... Não critico, nem nunca critiquei as opções clínicas do médico pois, verdade seja dita permitiu-me tirar a cabeça da areia e respirar. Mas, à medida que a situação se estabilizou, e a minha vida deu um dos primeiros turbilhões que estava a precisar decidi deixar de ir às consultas. A sua distância incomodava-me um pouco, assumo. Esse foi o meu primeiro grande erro! 

Completamente noviça nessas coisas de antidepressivos e hipnóticos acabei por fazer uma espécie de desmame de uma forma abrupta e completamente sem nexo. À medida que os comprimidos acabavam eu simplesmente não comprava mais... 

Passado algum tempo, com a partida iminente nesta aventura por terras gaulesas, decidi procurar novamente ajuda médica e, desta vez, o psiquiatra em questão ia muito mais ao encontro daquilo que eu acredito que é o papel de um profissional de saúde. Escutou-me, tentou entender-me e ajudar-me a encontrar soluções.

Claro que, entre a situação que estava ainda fora do meu controlo,  e a minha vida a aproximar-se perigosamente de uma viragem que ninguém poderia adivinhar se iria correr bem ou mal, o recurso a medicação foi inevitável. Ao menos teria um suporte para todas as mudanças que se avizinhavam. Mas desta vez a medicação utilizada foi mais ligeiras e em doses perto das residuais.

Durante quase 3 anos era impossível estar em completo silêncio sem ser para dormir, perder uma noite de sono era sinónimo de quatro dias de recuperação e de uma dor de cabeça mortal, as minhas mãos tremiam-me 24/24 horas por dia e sempre que vinha uma dor de cabeça sentia-me apreensiva.

Não sei se fui só eu mas durante a altura mais incapacitante de todo o meu processo, as dores de cabeça eram muito fortes e constantes. 

A ideia era e sempre foi que eu tomasse a minha vida e as minhas emoções em mãos e que o seu uso seria só uma "ajuda" e nunca a causa do meu restabelecimento. 

À cerca de dois anos decidimos, leia-se eu e o médico, que estava na altura de começar a reduzir as doses terapêutica. Tudo se passou sempre bem e desta vez sempre segui os seus conselhos. 

No entanto voltei a decidir mudar tudo outra vez... aproximava-se uma mudança de mais de 7 horas de viagem de automóvel entre a minha primeira "casa" e a actual. Longe de todas as pessoas com quem me tinha bem entendido inicialmente ia recomeçar tudo do zero. O desmame dos calmantes e dos antidepressivos ficou em "STOP" mais uma vez. Era mais uma grande volta... 

Estou na "nova" cidade há cerca de um ano e meio. O trabalho corre bem apesar de saber que ainda "não é aquele", a equipa não é perfeita mas aprendi que o silêncio, a capacidade de discernimento e a mostra clara de que "trabalho é trabalho, conhaque é conhaque" permitiram-me ter boas relações sem que a minha vida pessoal ficasse demasiado exposta. Aprendi a deixar o trabalho no trabalho, a não levar as opiniões alheias nem as criticas como um "ataque pessoal" e de tentar perceber se gostam de mim ou não, ou se dizem mal de mim ou não uma tarefa, entre todas as outras. 

A entrada de "alguém especial" na minha vida, o que não foi de todo um processo tão fácil nem "linear" também foi uma nova aprendizagem. Afinal os erros e as mágoas do passado tinham-me dado experiência para quê continuar a sentir pena de mim própria?! E por fim, o maior balão de oxigénio que se pode ter, consegui finalmente fazer as pazes comigo mesma. E esse foi, sem dúvida, o mais desafiante e o mais importante dos desafios.

Incluí novas coisas no meu dia a dia: desporto, alimentação, sofrologia, mindfulness, meditação... nem sempre foi fácil mas acabei por me disciplinar. A etapa mais dificil foi mesmo encontrar o sono de uma forma natural. Aceitei que todas as pessoas têm insónias, que não é nada de grave e a meditação ajudou-me neste processo apesar de, ainda hoje, notar que a minha "qualidade" de sono se alterou, acordo de manhã igualmente descansada. 

A minha resistência às lágrimas nunca foi muito forte e, com o desmame fiquei com as emoções muito mais à flor da pele sem no entanto me sentir fragilizada, e muito menos envergonhada, com isso. 

Já passaram três meses e estou bem e feliz. Consigo estar em casa, em total silêncio sem me sentir incomodada, voltei a puder ir a lugares com muita gente e barulho sem que o som me suba à cabeça e que lá permaneça como um ruído gigante. As minhas mãos tremem menos e os meus dias têm fases distintas decidadas a mim própria, à minha família e amigos, ao meu namorado e ao meu trabalho. 

A qualidade e a higiene de vida tornaram-se fundamentais sem, no entanto, pensar nisso como uma obsessão e, apesar de ter sido longo e ter tido muitos altos e baixos acho que eu, e todos aqueles que me acompanharam ao longo destes anos, estamos de parabéns não pelo fim do consumo de antidepressivos e calmantes mas por nunca me terem deixado acreditar que era para a vida toda e que não podia assumir sozinha o controlo da minha vida. 

O meu conselho a todas as pessoas que estão a passar por uma destas situações: os químicos devem ser tomados de forma pontual e não "para a vida" como se houve bastantes vezes. Tentem cercar-se daqueles que vos amam, aprendam a "relativizar" e que "errar é humano", perdoem-se a vocês e aos que vos fizeram mal. Sorriam, cuidem-se e fortaleçam-se. Reencontrem-se e acreditem que a vossa vida é vossa e não é uma má fase que vos vai roubar o seu controlo. 

Um grande beijinho de força e esperança! 

Margarida

 

8 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D